Elevação não harmônica no português de Porto Alegre : caracterização acústica e análise fonológica

Este trabalho apresenta uma análise da elevação não harmônica das vogais médias pretônicas, fenômeno em que as vogais médias /e/ e /o/ são realizadas como [i] e [u], respectivamente (s[e]nhora ~ s[i]nhora / b[o]neca ~ b[u]neca). Estudos anteriores sobre o processo na variedade do PB de Porto Alegre...

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Detalhes bibliográficos
Autor: Cunha, Victória Goulart
Formato: tesis de maestría
Estado:Versión publicada
Fecha de publicación:2024
País:Brasil
Recursos:Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Repositorio:Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFRGS
Idioma:portugués
OAI Identifier:oai:www.lume.ufrgs.br:10183/290375
Acesso em linha:http://hdl.handle.net/10183/290375
Access Level:acceso abierto
Palavra-chave:Fonologia
Vogais pretônicas
Non-harmonic raising
Pretonic vowels
Phonological analysis
Acoustic analysis
Descrição
Resumo:Este trabalho apresenta uma análise da elevação não harmônica das vogais médias pretônicas, fenômeno em que as vogais médias /e/ e /o/ são realizadas como [i] e [u], respectivamente (s[e]nhora ~ s[i]nhora / b[o]neca ~ b[u]neca). Estudos anteriores sobre o processo na variedade do PB de Porto Alegre realizam análises variacionistas (Klunck, 2007; Cruz, 2010; Cunha, 2022) e constatam baixas proporções de aplicação, mais altas para /o/ do que para /e/. A partir da literatura sobre o fenômeno, os objetivos deste estudo são determinar uma representação fonológica das vogais que explique a realização do processo e examinar acusticamente as vogais elevadas. O trabalho tem duas etapas: análise acústica e análise fonológica. As hipóteses para a primeira etapa foram que (i) a elevação não harmônica deriva de uma mudança no F1 das vogais médias pretônicas e que (ii) as vogais que sofrem o processo de elevação têm valores de F1 intermediários entre vogais altas e vogais médias. Para testá-las, a análise acústica contou com quatro participantes, os quais gravaram 40 frases-veículo cada um. Foram controladas as medidas de F1, F2 e duração das vogais /i, e, o, u/ tônicas e pretônicas e das vogais pretônicas /e, o/ elevadas, totalizando dez grupos de vogais. Com as medidas coletadas, efetuaram-se análises de regressão linear na plataforma R para as séries de vogais anteriores e posteriores separadamente. Apenas F1 apresentou efeitos significativos, resultado consistente com a expectativa de a elevação em sílabas pretônicas envolver mudança de altura da vogal e não a centralização. Em relação à segunda hipótese, as vogais elevadas apresentaram comportamento similar ao das pretônicas /i/ e /u/, não valores intermediários de F1. Ainda, a vogal /e/ elevada apresentou duração menor que das vogais /i/ e /e/ pretônicas, enquanto /o/ elevado apresentou duração próxima à pretônica /u/. Para a análise fonológica, as hipóteses levantadas foram que (iii) a elevação não harmônica seria licenciada por mudança no traço [alto] e que (iv) sua implementação deriva de regras no nível fonético-fonológico por conta de segmentos dorsais e labiais em contexto precedente (cf. Bisol, 1981; Battisti, 1993; Schwindt, 1995; Klunck, 2007; Cruz, 2010; Battisti, Perozzo, Cunha, 2020; Cunha, 2022). Para testar a hipótese (iii), buscou-se a representação fonológica dos segmentos, conforme Purnell e Raimy (2015) e Purnell, Raimy e Salmons (2019). Nesse modelo, parte-se de uma abordagem de contraste e aperfeiçoamento de Hall (2011), em que a fonologia (abstrata) é composta por representações de traços subespecificados. Já a variação (situada na fonética) é resultado da implementação e aperfeiçoamento dos contrastes, que podem ser influenciados por diferentes fatores. Uma das representações elaboradas neste trabalho levou em conta a proposta de Lee (2008) e os achados de Madruga (2017), o qual justifica a variação na pauta pretônica por uma mudança no traço [ATR]. Portanto, testou-se uma representação em que os processos na pauta pretônica decorreriam de uma mudança de [ATR], entretanto ela se mostrou inviabilizada. A segunda representação testada levou em conta os achados de Bisol (1981) e Schwindt (1995), os quais justificam o processo de harmonia vocálica por uma mudança no traço [alto]. Então retomamos a representação elaborada por Battisti (2024). A autora verificou que as vogais tônicas recebem especificação na seguinte ordem: Raiz da língua > Impulso da língua > Altura da língua > Altura da língua. Na primeira dimensão, a vogal /a/ recebe especificação pelo traço [RTR]. Na segunda dimensão, as vogais anteriores recebem especificação pelo gesto [anterior]. Na terceira dimensão, as vogais /i, u/ recebem especificação pelo gesto [alto]. Por fim, na dimensão Altura da língua, as vogais médias-altas recebem especificação pelo gesto [alto] e as médias-baixas ficam subespecificadas. Na pauta pretônica, as vogais médias são neutralizadas e a última iteração deixa de ocorrer. A representação alcançada por Battisti (2024) permite tecer explicações sobre os fenômenos que ocorrem na pauta pretônica, especialmente a variação entre as médias-altas e médias-baixas. As vogais altas e médias-altas mantêm especificações diferentes, portanto elevação não harmônica deve ser explicada por regras no nível fonético-fonológico. Em relação a /e/, não se verificou contexto precedente favorecedor, assim, a proposta de Battisti, Perozzo e Cunha (2020) é que a elevação da vogal anterior ocorra por dispersão no espaço vocálico. Já a vogal /o/ tem os segmentos labial e dorsal como favorecedores em contexto precedente. No nível fonético-fonológico, os segmentos labiais e velares ficam inertes, bem como as vogais médias, o que pode motivar a aplicação de processos de aprimoramento de contraste, em favor das vogais altas. Sobre as maiores proporções de elevação de /o/, este é o segmento subespecificado no sistema, portanto sofre mais flutuação que outros segmentos. Assim, concluímos que a adoção do modelo de organização interna de Purnell e Raimy (2015) e Purnell, Raimy e Salmons (2019) permite uma análise que relaciona a representação fonológica e variabilidade atestada na pauta pretônica, no que diz respeito à elevação não harmônica.